tudo começa
do mesmo jeito
diferente
o que se quebra
pesa mais
do que o sonho leva
como se o dia
não passasse
dessa noite
(do "Dois em Um)
Poemas
Expectativas
Saudação da saudade
minha saudade
saúda tua ida
mesmo sabendo
que uma vinda
só é possível
noutra vida
aqui, no reino
do escuro
e do silêncio
minha saudade
absurda e muda
procura às cegas
te trazer à luz
ali, onde
nem mesmo você
sabe mais
talvez, enfim
nos espere
o esquecimento
aí, ainda assim
minha saudade
te saúda
e se despede
de mim
Minas
ANDAR
ANDOR
ARDOR
AR D'OURO
PRETO
há muito para subir em Ouro Preto
mesmo que o tempo tarde
andar devagar, bem devagar
escalar ruas
passo a passo
olhar para o chão
enquanto as montanhas
impassíveis
disputam nosso olhar
é no passar
que se põe o ardor
acima e abaixo
aos pés, ao céu
rochas para caminhar
mar de rochas
montanhas de pedra
há muito para descer em Ouro Preto
o frio das alturas
impregnado desse spleen
que não se explica
e a cada passo
uma lição de paciência
e a cada olhar
uma lição de silêncio
e a cada casa, porta, beiral
uma lição de história
que aqui perdura
dura, dura rocha
pedra sobre pedra
tudo que aqui se passou
também ficou
e fica em nosso passo
nessa rua
a ressoar
que a história
é a pré-história
de nós mesmos
que passamos
Arte do Chá
ainda ontem
convidei um amigo
para ficar em silêncio
comigo
ele veio
meio a esmo
praticamente não disse nada
e ficou por isso mesmo
Paulo Leminski
Saciedade
Só pedaços do mesmo tamanho
ficam prontos ao mesmo tempo,
sejam nacos ou migalhas.
A força para sacudir a panela
depende do que se põe nela
às vezes ao fogo brando
às vezes na fornalha.
Os crepes pedem paciência
as panquecas agilidade.
Cada receita pede
um gesto mais suave
ou mais grosseiro
conforme seu tempero.
Assim também se prepara
o gosto dos dias
o sabor das noites
até a saciedade.
Um olhar
o poeta me viu
bastou um olhar
e pode ver
a mola mestra
da aprendiz
que sou
a escolha que fiz
no avesso e apesar
da sorte adversa
de não pesar
de ser feliz
poeta é quem vê
o que não é de dizer
e ainda assim
diz
11/7
pressupondo que existe
memória na morte
e dentro dela um calendário
feliz aniversário
para Miguel Angelo Leminski
do livro "Dois em Um"
Sem chance
plantei uva
para o vinho
para as festas
para as passas
só deu batatas
do meu "Dois em Um"
Ao meu anjo
luz da manhã
afagada em meu seio
apagada em meu céu
noite escura
lua de outro sol
que não sei
do meu livro "Dois em Um"
Questões III
Se a preguiça é pecado,
o que Deus estará fazendo agora?
Em que se ocupa aquele que tudo pode?
Terá restado algo por fazer
depois que o mundo foi criado?
Se o desejo é fraqueza,
Deus nunca deseja?
Mas se é verdade que nos criou,
algo nele desejou.
Se a vaidade é um erro,
por que nos fez
À sua imagem e semelhança?
Ou terá sido o contrário?
Por que criar alguém
capaz de duvidar da criação?
Por que nós e ele não?
Sem Palavras
sumiê de fios, de folhas, sem tinta e sem pincel, onde o espaço faz papel de papel, o fio faz o efeito da escrita, os livros, fios em branco, são lidos pelo avesso, de lado, de vulto, de soslaio, os fios das folhas em ritmo, ora gráfico, ora elétrico, escrevem rimas ricas, linhas em todas as direções devolvem, resolvem nosso emaranhado enquanto flutua a dura madeira, nua carne, árvore madura suspensa, susto que pensa, pressente, arrepio de pêlos que nascem, atravessam, passam, morrem no pálido da pele onde ainda persiste um nada que se move na força dos fios e revela sua leveza e eleva o peso do espaço com todas as palavras não ditas
Baú de guardados
Trago, fechado no peito,
um baú de guardados.
Jóias, gemas e pérolas
que podem
ofuscar meus olhos.
Pedras, perdas, penas
que conseguem
represar meu rio.
Mas basta um som de flauta,
um dedilhar de piano,
o acorde de um violão,
o cristal de uma voz
e todas as comportas
se abrem
e me descobrem
levando de roldão
tudo que cabe
nesse cofre desvendado,
o coração.
Jóias, gemas, pérolas,
pedras, perdas, penas.
Brilhos que se confundem
no que sou.
Rolam nas águas e me levam
para perto, bem mais perto
de onde estou.
música Ná Ozzetti
Três amigas
para Maria Lúcia Dal Farra
Quando se encontraram
cheia, a lua, brilhava alta.
As faltas do inconsciente
que a gente da gente esconde
pulsaram na superfície.
Sem ao menos perceber
já estavam no porão
vasculhando assombrações
e vivendo, sem intenção,
as lembranças mais sagradas.
Muitas lágrimas nasceram,
quentes, em liberdade,
do fundo da intimidade
mais antiga do que elas
vinda, talvez, de outras eras.
Depois trocaram risadas
olhares telepáticos
e o mais enigmático:
uns silêncios eloqüentes.
São poetas, viu a lua,
talvez para compensar
a sensibilidade tão crua
tramando seus fios de prata,
achou de torná-las vizinhas.
De lá para cá, quando surge,
mesmo longe, é o mesmo céu,
em vez de esconder, tira um véu
e envolve suas almas nuas.
Ignorando distâncias
em seus raios, compartilha,
segredos e confidências
de amigas, irmãs, mães e filhas.
E tal qual na noite escura,
quando há lua, a solidão,
já não está mais sozinha.
Equívoco?
tudo
que
está
vivo
parece
parado
só
a
folha
morta
ao
cair
parece
viva
Se
Se você gosta do artigo,
não importam varizes, quilos a mais,
rugas, celulite,
se você gosta do artigo.
Se você gosta do artigo,
não contam o buço, a acne, a pele oleosa,
se você gosta do artigo.
Se você gosta do artigo,
não sobram nas pernas os pêlos,
nas axilas chumaços,
na boceta os tufos,
se você gosta do artigo.
Se você gosta do artigo,
jibóia, bacalhau, bode:
em nada atrapalha a fauna,
se você gosta do artigo.
Se você gosta do artigo,
uma certa feiúra, tampouco perturba,
se você gosta do artigo.
Se você gosta do artigo,
você gosta do artigo.
Dr. Ângelo Monaqueu, (um dos últimos poetas fesceninos) em seu recentemente lançado livro "Poemas da Mãe", brilhantemente organizado e prefaciado pelo poeta Omar khoury.
Haikais
Vermelho
pitanga temporã
brilha no inverno
a cor do verão
do meu livro Yuka
Poemínimo
a gente jamais imagina
a vida
por trás da página
Do meu livro Dois em Um
verão
a noite avança
o cheiro da dama da noite
invade a sala
escrito em parceria com Ná Ozzetti
Pássaros Para Patrícia Palumbo
revoada no jardim
o sabiá sabe a hora
Vozes do Brasil
-x-
rádio ligado
o sanhaço se assanha
Vozes do Brasil
-x-
Vozes do Brasil
o bem-te-vi avisa o bando
para vir ouvir
Os últimos
sem nenhum esforço
a vaca leva a família
de garças no dorso
Maria Valéria Rezende
maré cheia
a garça de pedra em pedra
sem molhar os pés
e assim termina a postagem do nosso "Conversa de Passarinhos".
Flores
na flor de romã
minusculo helicóptero
beija-flor da manhã
Maria Valéria Rezende
moça no campo
atraindo beija-flor
vestido florido
Do nosso "Conversa de Passarinhos"
obs: sinto que devia ter dado parceria à Ná Ozzetti por esse haikai, o vestido florido era dela e ela é que foi assediada pelo beija-flor e me descreveu a cena. Eu só coloquei no formato.
perdendo a conta
vai-se uma e logo
vão-se duas, não são minhas
nem tuas as rolinhas
Maria Valéria Rezende
uma, duas, quantas
tantas, tantas e tantas
todas anhumas
do nosso "Conversa de Passarinhos"
Desatando
aconchegados
entre a novela e o novelo
pontos sem nó
Esse acabou de nascer, inspirado em um do nosso Álvaro e postado na Haikai-l
Passagens
passa e fica
na poça, sem pressa
a lavandisca
Maria Valéria Rezende
pensa e pende
pousa e passa
o periquito
Alice
do nosso "Conversa de Passarinhos"
Em vez de
pau oco sem galhos
só dentro bem verde
ninho de papagaios
Maria Valéria Rezende
árvore ao meio dia
se enche de folhas
volta das maritacas
Alice
do nosso "Conversa de Passarinhos"
Patos patos
lá vão os patos
ponta de flecha no azul
em busca do sul
Maria Valéria Rezende
gritos na tarde
bando de curicacas
os patos respondem
Alice
do nosso "Conversa de Passarinhos"
Relacionamentos
bem de tardinha
entre sabiá e concriz
rola o diz-que-diz
Maria Valéria Rezende
bem-te-vis e sanhaços
enquanto o sabiá não vem
reina a paz no jardim
Alice
do nosso "Conversa de Passarinhos"
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